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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Caminhar sobre as Águas (Mateus 14, 13-21, Marcos 6, 31-44, Lucas 9, 10-17 e João 6, 1-13)

Na Bíblia, cada vírgula e cada ponto devem ser ‘escarafunchados’ pois, cada verbo, cada palavra tem seu sentido mais profundo, mergulhado no divino mistério. Não devemos prestar atenção apenas nos gestos ou ‘auges’, muitas vezes estes não são o mais importante e nem contém a mensagem pretendida pelos escritores.
Olhando desta forma lemos os textos como quem vê um truque de um mágico, onde nossa atenção é desviada do todo, destacando-se o mais evidente e desprezando a realidade. Na passagem em Mateus 14, 13-21 o que ressalta os olhos é Jesus estalando os dedos e pães e peixes saltando de um cesto como pipoca da panela e este exemplo é um bom lugar para provar esta tese.
Caminhar sobre as águas, multiplicar os pães e peixes, justamente ai nos deparamos com uma surpresa, a multiplicação dos pães acontece nos 4 Evangelhos (Mateus 14, 13-21, Marcos 6, 31-44, Lucas 9, 10-17 e João 6, 1-13) e o caminhar sobre as águas (Mateus 14, 22-33, Marcos 6, 45-52 e João 6, 16-21), só não acontece em Lucas. Nos evangelhos de Mateus, Marcos e João identifica-se também que a perícope (um mesmo momento) é a mesma nos três casos, quero dizer: os dois milagres acontecem na mesma seqüência e isto mostra que um milagre na história complementa o outro, os dois dão um mesmo recado.
Riquíssimos em simbologias que serão detalhadas ao longo desta reflexão. Os dois são milagres que Moisés também realizou: Abertura do mar morto e as codornizes e o maná, só que com uma diferença significativa, Moisés realizava os sinais seguindo as ordens de Deus e Jesus executa estes sinais com autoridade própria sem intermediar.
Dadas estas pistas vamos a reflexão sobre os textos: Multiplicação dos pães: Jesus está no deserto caminhando e curando uma multidão que o segue à algum tempo. Em determinado momento o texto de Mateus menciona sutilmente que havia grama no lugar (14, 19) e é onde Jesus pede para que o povo se acomode naquele lugar. Em seguida, Jesus e seus discípulos distribuem pães e peixes para todos que ali estavam. Os discípulos distribuem, porém não se dão conta do que está se passando.
Tentando levantar as minúcias do texto, a fim de elucidar a beleza das narrativas, identificamos que a multidão pára para comer na grama, a multidão se aconchega enquanto Jesus fica em pé. Não costumamos dizer, repetidamente o Salmo 23, 1 ‘O Senhor é meu Pastor e nada me faltará’? Quem é que procura a grama para dar de alimento aos que o segue, senão o pastor de ovelhas que inclusive está de pé, servindo e cuidando?
Existe situação de fome no texto, de desejo de justiça, de esperança... O quadro nos retrata as necessidades do povo e da realidade da vida naquele tempo – nada diferente de nossos dias de hoje.
Jesus com uma atitude simples de partilhar aquilo que havia em comum dentro da própria comunidade transforma o quadro de miséria em um quadro de fartura, Ele nos mostra que a solução está na partilha e na graça de se viver em comunidade – estrutura familiar onde um é responsável pelo outro (pelo próximo).
Em seguida, Jesus força os seus discípulos a pegar o barco e ir embora e aguardá-lo na outra margem, enquanto Ele se despedia da multidão, isto porque, agora que as pessoas aprenderam a lição, se fazia necessário caminhar unidos, com os próprios pés.
Jesus caminha sobre as águas: Agora o quadro é outro, os discípulos estão sozinhos no barco e com problemas não sabem o que fazer, e Jesus se dirigiu para eles caminhando sobre as águas que estavam agitadas.
Novamente vamos as minúcias: qualquer um que entenda um pouco de navegação sabe que águas agitadas são sinais de problemas, e sérios, para um capitão, marinheiro ou pescador, não foi Jesus que disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”? (Mateus 4, 19-20). Então no quadro do deserto a figura em questão é a do pastor pastoreando e neste quadro a figura é a do pescador que não está pescando. Todos os elementos do deserto estão, potencialmente, aqui neste quadro: a multidão, injustiça, fome, miséria, esperança e a palavra de Jesus.
Revendo os movimentos do quadro apresentado, o mar está revolto, os peixes estão dentro da água cobertos pelos problemas, Jesus caminha sobre estes problemas com seus ensinamentos e espera que seus discípulos tomem uma atitude, o que não acontece. Então, o que era esperado da parte dos discípulos?
Olhando um pouco mais detalhadamente, além de Jesus o barco também está sobre as águas revoltas. O barco, na simbologia, representa a comunidade, a estrutura familiar, onde acontece a partilha. Ele simboliza o ensinamento que deveria ter sido aprendido no deserto pelos seus discípulos.
Resumindo: os discípulos tinham que lançar a rede (Evangelho) e pescar, colocar os peixes (pessoas) dentro do barco, retirá-las das águas (dos problemas), transformando assim a realidade de miséria sufocando as pessoas, ceifando suas vidas sem transformá-las em vida, e vida em abundância.
Nestes textos verificamos que Jesus nos aponta a solução: A riqueza do radical amor ao próximo que se apresenta em nós mesmos, no poder que a multidão unida tem, que não é enxergado por ela mesma porque as pessoas estão preocupadas consigo mesmas. Também não percebem que são elas que sustentam a tirania no poder. O voto, por exemplo. Porém, Jesus não apresenta a espada como solução, mas, o amor ao próximo no compromisso e na conscientização de perceber a parte que cabe a cada ser humano. E agora, temos elementos para verificarmos os dias de hoje? Nós somos discípulos ou multidão, peixes ou ovelhas? A resposta é que antes de entender este texto, você era um peixe, porém, se você entendeu, me perdoe, mas, agora você é um pescador.