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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cura de uma hemorroíssa e ressurreição da filha de um chefe. Mateus (9, 16 – 26), Marcos (5, 21 – 43) e Lucas (8, 40 - 56).

Para mim, descrever os textos bíblicos com a mesma paixão que eu sinto por estes ensinamentos, é um grande desafio, pois, por mais que eu queira é sempre insuficiente e sempre sou tentado a retocar o texto, é como uma obra eternamente inacabada, no mesmo tempo estamos lidando com os mistérios de Deus e aqui, um pequeno passo na direção certa já é muito. Mas um dia quero voltar e reescrever a mesma passagem somente para perceber o quanto os meus cabelos brancos, os quais ainda não os tenho, afetarão as minhas percepções, pois a teologia é tão dinâmica quanto a nossa realidade.
Na passagem em questão vamos juntar partes de três evangelistas, ambos são a mesma passagem mas, um tem uma preocupação e outro tem outra. Quando observadores vislumbram o mesmo acontecimento as suas conclusões nunca são 100% idênticas, é como que se um observasse pelo lado direito do acontecimento e outro pelo lado esquerdo; um vê do alto e o outro vê de baixo; um é escrito em uma época e outro uma dezena de anos depois.
Com isso espero obter uma compreensão melhor, vamos pegar detalhes de cada um destes autores, particularmente esta é a fórmula que eu mais gosto de estudar os textos e é também a forma mais frutífera.
Os personagens centrais são duas mulheres, uma já de idade e outra muito jovem; uma muito doente e outra morta; uma tenta sobreviver e outra recebe a interseção de seu pai, junto a Jesus, e ressuscita.
Novamente um texto rico em símbolos e aqui temos um marco muito importante que transforma o velho e também marca o início do novo.
Para contrastar melhor vou pegar partes de um evangelista e remontar o mesmo texto a fim de fazer uma única passagem. Mas mesmo assim recomendo a leitura integral das três passagens posteriormente.
As passagens e as seqüências são as mesmas sem remover absolutamente nada e fica como se houvessem três narradores intercalando-se:

Mateus (9, 16 – 17) - “Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão torna-se maior. Nem se põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe em odres novos; assim ambos se conservam”.
Marcos (5, 21 – 39) - “E de novo atravessando Jesus de barco para o outro lado, uma numerosa multidão o cercou, e ele se deteve à beira-mar. Aproximou-se um dos chefes da sinagoga, cujo nome era Jairo, e vendo-o, caiu aos seus pés. Rogou-lhe insistentemente, dizendo: “Minha filhinha está morrendo. Vem e impõe nela as mãos para que ela seja salva e viva”. Ele o acompanhou e numerosa multidão o seguia, apertando-o de todos os lados.
Ora, certa mulher que havia doze anos tinha um fluxo de sangue e que muito sofrera nas mãos de vários médicos, tendo gasto tudo o que possuía sem nenhum resultado, mas cada vez piorava mais, ouvira falar de Jesus. Aproximou-se dele, por detrás, no meio da multidão, e tocou seu manto. Porque dizia: “Se ao menos tocar suas roupas, serei salva”. E logo estancou a hemorragia. E ela sentiu no corpo que estava curada de sua enfermidade. Imediatamente, Jesus, tendo consciência da força que dele saíra, voltou-se para a multidão e disse: “Quem tocou minhas roupas? Os discípulos disseram-lhe: “Vês a multidão que te comprime e perguntas ‘Quem me tocou?’ Jesus olha em torno de si para ver quem havia feito aquilo. Então a mulher, amedrontada e trêmula, sabendo o que havia sucedido, foi e caiu-lhe aos pés e contou-lhe toda a verdade. E ele disse-lhe: “Minha filha, a tua fé te salvou; vai em paz fique curada desse teu mal”.
Ainda falava, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga dizendo: “Tua filha morreu. Por que perturbas ainda o Mestre?” Jesus, porém, tendo ouvido a palavra que acabava de ser pronunciada, disse ao chefe da sinagoga: “Não temas; crê somente”. E não permitiu que ninguém o acompanhasse, exceto Pedro, Tiago e João, o irmão de Tiago. Chegaram à casa do chefe da sinagoga, e ele viu um alvoroço. Muita gente chorando e clamando em voz alta. Entrando disse: “Por que este alvoroço e este pranto? A criança não morreu; está dormindo”. Lucas (8, 53 – 56) – “E caçoavam dele, pois sabiam que ela estava morta. Ele, porém, tomando-lhe a mão, chamou-a dizendo: “Criança, levanta-te!” O espírito dela voltou e, Marcos (42) no mesmo instante, ela ficou de pé,  pois já tinha doze anos. Lucas (8, 55 – 56) E ele mandou que lhe dessem de comer. Seus pais ficaram espantados. Ele, porém, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que acontecera.

Observando a introdução que Mateus da a esta passagem, ele se preocupa com um detalhe importante que está nos exemplos que Jesus ricamente propõe em forma de parábolas, que são os odres e os remendos. Para os odres velhos Jesus é o vinho velho, profetizado e esperado pelo antigo judaísmo (Messias ou Filho de Davi); e para os odres novos Jesus é o vinho novo, a Boa Nova de Deus, a mesma fórmula é aplicável aos remendos velhos e novos.
Marcos nos diz o nome do pai da menina: Jairo, que vem hebraico e que quer dizer: iluminado de Deus, animado por Deus. A profissão do Sr. Jairo é chefe de sinagoga, ele é uma pessoa que está a frente da comunidade judaica de sua época, este pai ligado às tradições compreendeu quem é Jesus.
Marcos nos mostra a movimentação da mulher hemorroíssa, que também está em busca da ajuda de Jesus: Aproximou-se dele, por detrás, no meio da multidão, e tocou seu manto. Porque dizia: “Se ao menos tocar suas roupas, serei salva”. Os doze anos que aquela mulher sofreu também nos da uma boa pista (doze tribos, comunidades em comum) e por ter uma certa idade, aqui ela representa o antigo – odre velho.
Com a menina o número doze também se repete, assim como no Novo Testamento (doze são os Apóstolos) e por ser uma criança representa o novo – odre novo.
Tanto o Antigo quanto o Novo estavam correndo perigo, para o Antigo a ignorância e o poder adquirido que corrompeu os seus lideres e agora se sentem este "poder" ameaçado por Jesus (menos Jairo). A ameaça para o Novo, era a ignorância, pois seus discípulos ainda haviam compreendido a exata dimensão do que quer dizer ressurreição, tanto que quando Jesus é capturado e condenado, todos fogem.
Lucas é quem nos da uma pista maravilhosa quando escreve: O espírito dela voltou, muito semelhante a Pentecostes, quando o medo de todos ameaçava o Projeto, e quando o Espírito de Jesus retorna com sua luz, todos entendem a dimensão real da sua missão e se espalham para levar a Boa Nova à todos. E o mesmo projeto que parecia ter morrido junto com Jesus, é reavivado e tem a sua sequência.  
Com estes elementos Jesus quer nos mostrar que não se faz necessário extinguir o antigo e iniciar algo totalmente novo, Jesus é a continuação do judaísmo que a final encontrou o seu anunciado messias e aos Apóstolos é reservada a tarefa de levar este Jesus a todos os demais, jogar a rede do outro lado, ir para outras margens, tanto que, quando Jesus encontra a samaritana Ele não se mostra preocupado em converte-la, nem tão pouco o geraseno, Jesus somente está preocupado com transformar a realidade caótica em consciência, amor, justiça...
Aos desejosos por tradição Jesus é o vinho velho, pois, todas as profecias se convergem à Ele; aos frustrados com o antigo, Jesus é o vinho novo. Jesus tanto se apresenta como vinho velho para o odre velho, como vinho novo para o odre novo.
Quando se faz um levantamento teológico uma observação muito importante é determinar, se possível, em que dia da semana está a passagem, e quem nos diz é Marcos, dois versículos a frente: (6, 2) Vindo o sábado..., isto nos coloca na sexta-feira que é o dia do sacrifício de Jesus (cisão, velho e novo).
Em Jesus, ser um jarro novo ou não é escolha de cada um, não necessariamente temos que quebrar o jarro velho, a final de contas, um jarro feito hoje amanhã também envelhecerá.
Estes conflitos também estão presentes nos dias de hoje, principalmente em duas instituições: família e religião. As religiões estão no mesmo caso da mulher e da menina e a família é o mesmo dos remendos. A solução para ambas continua sendo a mesma, Jesus.


Quadro (detalhe): Carlos Araujo - "Talítha kum" Bíblia - Citações"
Esta reflexão também teve a colaboração de Maria Helena.